Dona Marta abriu a padaria em 2004, num bairro residencial de Belo Horizonte. Vinte e dois anos depois, com 67 anos, decidiu que era hora de parar. O marido já tinha saído da operação há cinco anos. Os filhos não quiseram assumir.
Ela procurou um corretor. O corretor disse R$800 mil. Ela achou pouco. O marido achou muito. Ninguém sabia quem estava certo.
O que a padaria tinha
Faturamento anual de R$1,14M. CMV de 38%. Folha de R$468k. Resultado operacional de R$112k por ano — R$9.300 por mês.
A avaliação
EBITDA ajustado: R$112k + pró-labore acima do mercado (R$6k excedente × 12) = R$184.000
Múltiplo: 3,8x (alimentação, bairro consolidado, contrato longo, equipe estável)
Avaliação DCF: R$699.200
+ Equipamentos: R$120.000
- Dívidas: R$18.000
Valor de venda: R$801.200
O corretor estava surpreendentemente perto. Mas o caminho para chegar ao número foi completamente diferente do que ele imaginou.
O ponto é o ativo
Nesse caso específico, o ponto comercial era o ativo mais valioso. Esquina de bairro residencial denso, com estacionamento, em rua de alto fluxo de pedestres, contrato renovado até 2031. Qualquer negócio de alimentação naquele endereço teria demanda.
Se a padaria estivesse com o contrato vencido, o valor cairia para R$500k. O contrato de locação longo adicionou R$300k à avaliação — mais que os equipamentos, mais que o resultado operacional de dois anos.
Para padarias de bairro, o ponto é frequentemente o componente mais valioso. Não é o forno. Não é a receita do pão francês. É a esquina.
O que ajudou no valor
Equipe que fica. Dos 12 funcionários, 8 estavam há mais de 5 anos. Os padeiros conheciam as receitas. A transição seria suave — e isso é ouro para o comprador.
Base de clientes fiel. Padaria de bairro com 22 anos tem algo que nenhum marketing compra: hábito. As pessoas compram pão ali porque sempre compraram ali.
Sem sócio-dependência. Dona Marta já não trabalhava na produção há anos. Ia uma vez por dia conferir o caixa. O negócio operava sem ela.
A venda
Marta vendeu por R$780 mil para um casal jovem que já operava uma cafeteria. Fecharam em 45 dias. O comprador manteve a equipe, manteve as receitas, trocou a fachada. Seis meses depois, o faturamento subiu 15% com a adição de café especial e delivery.
A padaria valia R$800 mil. Mas nas mãos certas, com as melhorias certas, passou a valer mais. Esse é o ponto: valuation não é um teto. É um piso para quem sabe o que fazer com o negócio.